Neste espaço, aprofundaremos o debate sobre os problemas de São Paulo. Trataremos dos mais diversos temas, sempre ligados a questões que mexam com a vida da população, como economia, saúde, educação e sustentabilidade. Entrevistaremos, semanalmente, especialistas, técnicos, doutores, parlamentares etc. Pessoas que possam contribuir a construção de uma cidade mais eficiente, justa e dinâmica. Paulo Fiorilo
Entrevista com a mestra em políticas públicas de educação infantil Dalva Franco. A professora, que faz doutorado na Unicamp, fala sobre os desafios da alfabetização de nossas crianças. Segundo dados da Prefeitura, hoje temos uma demanda de 147.027 crianças fora da educação infantil em São Paulo.
1) Como é trabalhada a educação infantil na cidade de São Paulo?
Dalva Franco – Pela orientação dos órgãos centrais e regionais, a educação infantil é trabalhada a partir das orientações curriculares (OCs) organizadas pela própria secretaria. Essas OCs norteiam as práticas das professoras, prendendo-se a metas para a construção do conhecimento.
2) Em que situação encontra-se esse modelo?
Dalva Franco – Pela orientação da Secretaria Municipal de Educação (SME), cada unidade de ensino deveria trabalhar a partir das orientações curriculares, porém, muitas escolas optam por organizar o trabalho a partir de outros referenciais como o trabalho com projetos, ou a partir de outras experiências curriculares. A participação da família é uma das partes mais importantes da experiência educacional. Ela é uma unidade pedagógica que não pode ser separada da escola. Deve ser ouvida e trazida para o cotidiano das ações pedagógicas.
3) As escolas exploram ou trabalham quais aspectos da infância?
Dalva Franco – Temos investido na construção do conhecimento pela criança por meio de atividades lúdicas, jogos e brincadeiras. Acreditamos que o seu aprendizado, nesta idade, está inserido nesse processo. Cada criança tem a sua individualidade. Embora faça parte de um coletivo, precisa de acolhimento e aconchego individual. O professor deve manter um relacionamento pessoal com cada criança e basear este relacionamento num sistema social da escola. Nesse caso, trabalha-se o conflito como elemento aglutinador, transformador, de assimilação e acomodação no grupo. E o professor tem o papel de moderador, nunca de intruso, instigador da busca pelo conhecimento.
4) O que a Prefeitura de São Paulo coloca à disposição para a educação infantil?
Dalva Franco – Temos à disposição a formação do Rede em Rede, a disponibilidade de recursos financeiros como o Adiantamento Bancário, verba destinada à manutenção de prédios e equipamentos, e o PTRF – para itens de manutenção, compra de materiais pedagógicos e brinquedos.
5) A nossa educação infantil prepara a criança para que, quando estiver no primeiro ano do ensino fundamental, seja alfabetizada em seis meses, como defender alguns especialistas?
Dalva Franco – Não. A educação infantil não é mais preparatória. Hoje ela é pensada e trabalhada visando o desenvolvimento integral da criança, sem esse foco compensatório dos anos 70. Apesar de muitas professoras continuarem acreditando e praticando essa visão preconceituosa e ultrapassada na educação infantil. Isso contradiz toda uma discussão embasada em teorias do conhecimento de que cada criança tem seu tempo de aprendizagem, que deve ser respeitado. Por isso pensamos a formação da criança em ciclos, para que todos possam ter seu tempo respeitado.
6) Qual a rotina, em sala de aula, de uma criança que entra na educação infantil?
Dalva Franco – Deve ser uma rotina que visa à alegria, a participação da criança nas atividades com prazer, focando na aprendizagem por meio do lúdico. Para isso, o currículo da educação infantil promove o seu desenvolvimento a partir do mundo físico, fazendo dele um ambiente intencionalmente educacional. A criança pode envolver-se em brincadeiras e atividades lúdicas que envolvam o explorar, construir, desenhar, pintar, jogar, dramatizar, ver, escolher, usar e, posteriormente, devolver ao lugar os materiais do seu interesse.
7) Uma professora dá aula para quantos alunos da educação infantil? Esse número representa salas superlotadas ou a proporção aluno/professor esta dentro do recomendado para uma educação de qualidade?
Dalva Franco – Portaria de matrícula da PMSP limita o número de crianças por professora em 35, no Infantil I e II, para as EMEI. Nos CEIS, que são crianças de zero a três anos são de: – Berçário I – 7 crianças / 1 educador; – Berçário II – 9 crianças / 1 educador; – Mini – Grupo I – 12 crianças/ 1 educador; – Mini – Grupo II – 25 crianças / 1 educador; – Infantil I – até 30 crianças / 1 educador; – Infantil II – até 30 crianças / 1 educador.
8)É possível comparar o ensino infantil público com o privado?
Dalva Franco – No caso do município de São Paulo, sim. A educação infantil da rede municipal pode ser considerada melhor do que a de muitas escolas particulares.
9) Que mudanças aponta como fundamentais para a melhoria da educação infantil?
Dalva Franco – Investir na educação infantil pública e de qualidade, tornando o Estado financiador de bens e oportunidades da população. Para isso pode-se pensar na expansão da rede direta, maior destinação de recursos financeiros para a educação infantil municipal, melhor organização da demanda atendida entre CEIS e EMEIS e formação de qualidade para os profissionais da educação infantil.
10) Qual é a tese de doutorado que defende na Unicamp?
Dalva Franco – No meu trabalho de doutorado tenho como objetivo fazer uma análise dos dez anos das creches na educação, tendo em vista que em São Paulo teve início a transição da Secretaria de Assistência Social para a Secretaria de Educação em 2001.